Zilma Bauer: “Indústrias de cosméticos não param de crescer no ES”

O que a Adcos, Griffus, Bonita, Ervas Naturais, Essencialles, Biotropic, Ybera têm em comum? Elas são marcas de cosméticos capixabas, um segmento em ascensão, que desconhece crise e já reúne 38 empresas formais no Espírito Santo. Elas empregam, são rentáveis, promovem o nome do Espírito Santo e nas últimas duas décadas crescem a cada ano. “Somos muito respeitados”, afirma Zilma Bauer Gomes, dona da indústria de cosméticos capilares Ervas Naturais – empresa que agora em agosto comemora 20 anos de funcionamento. Zilma, que integra a diretoria do Sindicato das Indústrias Químicas no Espírito Santo como vice-presidente para os Assuntos Químicos em Geral, traça um panorama desse segmento, destacando que, através da união dessas indústrias, tem alcançado avanços importantes e atraído novos negócios. Por exemplo, foi inaugurada recentemente uma indústria de cosméticos em Itacibá, no município de Cariacica, a Carvalho Cosméticos, com a promessa de 150 empregos.

Revista SIM: O Espírito Santo vem ganhando destaque nacional no setor de cosméticos graças a um mix de produtos que atende bem o mercado de beleza, estética e higiene pessoal. Como se apresenta hoje essa indústria capixaba?
O segmento dos cosméticos tem hoje 23 empresas associadas ao Sindiquímicos-ES, mas ao todo temos 38 indústrias. Essas indústrias, em sua maioria, são pequenas empresas, como ocorre em nível de Brasil. A indústria de cosméticos é um segmento extremamente regulado. As exigências, as legislações são muito severas. O Brasil é o campeão em legislação que envolve cosmético, de forma que quem está de fora, tem dificuldade para entrar. O que temos são poucas grandes empresas e uma maioria de pequenas empresas. Para se ter uma ideia, somente quatro indústrias no Brasil produzem coloração; as demais terceirizam. No Brasil todo temos hoje 2.596 indústrias de cosméticos. Há em São Paulo quase 1.100 e aqui no Espírito Santo temos 38 dessas indústrias.

SIM: Além dessas 38, há outras informais?
É claro que existem, principalmente, atuando nos salões de beleza, até porque isso não é tão fiscalizado. Como ainda não existe uma faculdade para formar cabeleireiros, esta é uma profissão que ainda não é regulada. Mas é um mercado que está sendo profissionalizado. Somente agora foi criada uma data reconhecendo a profissão, o dia 19 de janeiro, como Dia Nacional do Cabeleireiro (extensivo aos esteticistas, barbeiros, manicures, pedicures, depiladores e maquiadores). Então, existe sim a facilidade das informais começarem nos salões de beleza, até pela falta de profissionalização do cabeleireiro.

SIM: Como essas empresas de cosméticos capixabas se relacionam ?
Em 2004 éramos associados ao Sindiquímicos, mas, na verdade, a gente se preocupava muito mais com a questão das convenções trabalhistas; não olhava muito para as questões do próprio segmento, até porque o sindicato era muito diversificado. Aí, quando começamos a reunir uma, duas empresas para falar de nossos problemas comuns, nossos desafios e demandas, começamos a identificar pontos iguais e começamos a construir um relacionamento. Assim, conseguimos olhar para o mercado e tentar ver qual o tamanho dele, o que esse mercado oferecia. Então, formos buscar essas informações e começamos a trabalhar naquilo que não haveria conflitos. Agora já sentamos numa mesa com 23 indústrias ali representadas e lá somos todos parceiros.

SIM: Quais são as empresas? Ao que parece algumas são até desconhecidas, não é?
A Adcos, que muitas pessoas não sabem que é capixaba, é uma empresa com uma qualidade de referência em nível nacional. Temos a Biotrópic que trabalha com marcas licenciadas da linha infantil no varejo, temos a Griffus e várias outras. Existem as marcas que só atendem ao público profissional. Parte delas começa com o público profissional e depois migra para o varejo. Toda vez que falo profissional, refiro-me ao público de cabeleireiros, esteticistas, produtos pensados para os profissionais. E trabalhar com eles exige muita dedicação. Agora mesmo, na Ervas Naturais, lançamos um produto para loiras, um produto que matiza o cabelo sem deixá-lo amarelo. É exclusivo para os profissionais, porque a coloração, no salão, leva muito tempo para agir, e o cabeleireiro precisa ganhar tempo. Aí criamos uma coloração que age com toda eficiência necessária e em apenas 20 minutos, a metade do tempo gasto normalmente.

SIM: Como o segmento capixaba de cosméticos é visto pelo mercado externo?
Pela nossa união, o segmento de cosméticos do Espírito Santo é visto com muito respeito pelos fornecedores e pelos concorrentes. Isso porque são produtos de qualidade, produtos realmente honestos, diferentes de alguns outros mercados que já andamos estudando. Além disso, nossos produtos são muito diversificados. No estado temos indústrias que produzem esmaltes, produtos capilares, produtos de cosmética íntima – no Brasil só temos quatro dessas indústrias e uma está no Espírito Santo – , temos produto da dermocosmética, de higiene para hotéis, para coloração, henna; é muito diversifico; temos quase tudo em cosméticos aqui nessas 38 indústrias.

SIM: O capixaba conhece essas marcas? Valoriza os produtos?
Estamos até fazendo um estudo para saber sobre isso, se é da cultura do capixaba valorizar um produto da terra. Nesse sentido, a gente tem um apoio grande do Sebrae, o que é importante ressaltar. Uma vez que conseguimos reunir 20 indústrias, já conseguimos assinar convênios de apoio e incentivo do Sebrae por segmentos. Agora já podemos contratar pesquisas e consultorias individuais, personalizadas, e isso fez uma diferença muito grande nos resultados. Um dos objetivos é fazer com que essas marcas fiquem conhecidas. Já pensamos, por exemplo, em um selo de produto totalmente capixaba, para isso ser massificado.

SIM: Não seria por falta de publicidade?
Primeiro que não é barato fazer mídias em massa. Provavelmente muitos nunca ouviram falar da minha marca, porque só vendo para salão de beleza. Quando vou me comunicar, eu me comunico para aquela pessoa que está lá dentro do salão. Agora, não tem como deixar de fora as redes sociais. Também, nada impede de fazermos propagandas e estamos pensando em fazer isso em grupo. A gente já sabe que o capixaba é um povo meio fechado e se ele valoriza ou não o produto capixaba, essa questão não envolve somente as empresas. Então, vejo que temos um longo caminho para isso.
Sim: Onde estão localizadas essas indústrias e de onde vêm as matérias-primas?
A grande maioria está instalada na Grande Vitória, em Vila Velha, Cariacica e Vitória, e outras na região das montanhas. Quanto à matéria-prima, o estado não é auto-suficente. A maioria é importada. Por exemplo, à época do tsunami na Ásia , um produto faltou, foi um grande aperto, mas quem tinha em estoque ajudou ao outro, fez trocas, e isso também foi importante.

SIM: Você já disse que, pela união, o segmento tem se fortalecido. Há alguma outra ação que você destacaria nesse sentido?
Eu sou uma sonhadora, foi assim que minha empresa nasceu. Acredito que os sonhos são as matérias-primas que Deus usa para realizar os projetos dele aqui na Terra. Então, sonhei muito com a minha empresa e sonho ver o segmento fortalecido. E, uma coisa que conseguimos agora, foi realizar a nossa primeira compra coletiva. Outra conquista foi com relação à embalagem, que é o maior custo do produto. Começamos um estudo de uma embalagem que poderia atender a todos, em comum, e aí conseguimos desenvolver um fornecedor daqui mesmo. Ele é extremamente responsável, capaz, qualificado, tem sua indústria de saneantes, e achou nesse nosso mercado sua grande oportunidade. Esse fornecedor é a indústria Ipanema (Kimaflor). Agora, a gente apresenta os projetos e ele desenvolve os moldes. Com isso, o nosso custo foi lá para o chão. Essa foi outra conquista.
Sim: Como o setor vê essa tendência do consumidor preferir os ‘produtos ecológicos’?
Temos uma reunião toda terça-feira pela manhã para pensar produtos. E nesta última reunião começamos a fazer estudos para desenvolver uma linha totalmente orgânica e natural. Estive na feira em Bolonha-Itália no ano passado, e o maior pavilhão era de produtos naturais e orgânicos. Lá existe um consumo consciente e maduro , um público que, em massa, consome esses produtos. No Brasil estamos caminhando nesse sentido, até em termos de legislação. Nossa legislação que regula o segmento, se espelha muito no mercado europeu.
A empresa que hoje não olhar para essa tendência ambiental, e para sua inserção na comunidade, e que seu produto não reflita isso, não conseguirá ficar no mercado. Não existem mais barreiras. Com a internet, com esse mundo globalizado, tudo hoje é notícia. E não tem como enganar ninguém. Já temos hoje a logística reversa (que obriga as indústrias a se responsabilizarem pelos seus resíduos sólidos e seu reúso) que está tendo um desdobramento bem complicado inclusive, porque não se chega a um denominador comum diante das muitas adequações exigidas. Temos muito a construir, mas o caminho a seguir é este.

SIM: Como a crise impacta o setor? Tem aquela brincadeira: “A gente passa fome mas não deixa de arrumar o cabelo” não é?
Isso é verdade. É lógico que há mais de 20 anos o setor não via retração. Que segmento que cresce assim? Existem ascensão e declínio, no mercado é assim. Mas o Brasil é muito interessante. O mercado consumidor brasileiro é o terceiro no mundo no consumo dos cosméticos. É o povo mais cheiroso do mundo, que mais toma banho, que mais lava os cabelos. Mas acontece que agora, na crise, houve uma retração. Caiu 3,5%, em relação ao crescimento. E isso é sentido. Quem vende para salão percebeu, quem vende para o varejo principalmente, percebeu. Então, é o momento para se posicionar melhor. E que as empresas tenham essa consciência de que são pequenas e fracas quando estão sozinhas. Mas, se a gente consegue se unir para trabalhar nossos desafios em comum e no coletivo, a gente consegue concorrer com esses gigantes e tubarões que estão aí, que são as multinacionais. Elas têm um poder de mídia que não temos. A crise oferece oportunidades para a gente se estruturar, de rever processos. Temos trabalhado ações de sobrevivência no segmento, temos consultoria de gestão de custos e quem passar 2016 e 2017 vai deslanchar.

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