Paulo Hartung: Um novo relacionamento com a água e os recursos naturais

O Espírito Santo passa por sua pior crise hídrica em 80 anos, com impactos na vida das pessoas da cidade e do campo, na economia e nos governos. Nesta entrevista exclusiva à Revista Sim, o governador Paulo Hartung elenca diversas ações para enfrentar o problema atual e garantir que no futuro não falte água. “Estamos plantando árvores para colher água em nossas nascentes”, disse Hartung em referência ao Reflorestar, um dos programas do governo para recuperação de nascentes e cursos d’água, que passa a ganhar mais agilidade. Anuncia ainda a construção de um conjunto de barragens, inclusive, uma no Rio Jucu, que abastece a Grande Vitória. Ao final da entrevista, Hartung fala ainda sobre outros assuntos como, por exemplo, o seu futuro político.

REVISTA SIM: O Espírito Santo sofre com uma estiagem que se arrasta há três anos e já falta água para abastecimento em algumas cidades. Como o Governo está enfrentando essa situação?
Os estudiosos estão apontando esta crise como a pior em 80 anos. O curioso é que o Estado viveu de 2013 para 2014 literalmente debaixo d’água. Passamos por um momento de enchentes, de destruição, de perdas de vidas humanas, provocado por excesso de água. Mas quando veio a campanha eleitoral, esse debate sobre crise hídrica não entrou.
Acabou a eleição, fui eleito no primeiro turno, e antes de eu tomar posse, tivemos a falta d’água. Em dezembro, começou a faltar água em Guarapari, abastecida pelos rios Conceição, Jaboti, e esses dois rios perderam vazão rapidamente e o que suportou o abastecimento da cidade foi a outra captação que nós temos, distante, que é no Rio Benevente.
Então, quando eu tomei posse, criamos um comitê para acompanhar a questão hídrica do Estado, porque os sinais não eram bons. Começamos a ter a queda de vazão de todos os nossos mananciais. Não só esses de Guarapari, o Itapemirim, o Cricaré, o Doce, além dos que abastecem a Grande Vitória, que são o Jucu e o Santa Maria.
Então, essa é a primeira questão: um comportamento novo de fenômenos extremos acontecendo em um curto espaço de tempo: uma hora água demais, uma hora água de menos.
O comitê permanente funciona às vezes até em finais de semana, cuidando da questão hídrica, e monitora a vazão dos nossos principais cursos d’água, e está muito articulado com a nossa área de meio ambiente, com a área de agricultura, com a nossa Agência de Recursos Hídricos, que é a AGERH. Começamos imediatamente a ver ações que poderíamos desenvolver e que mesmo que não desse solução agora, pudesse a longo prazo trazer mais conforto para os capixabas. Então, tomamos um conjunto de medidas de lá pra cá.

SIM: Quais medidas?
A primeira delas foi reforçar um programa chamado Reflorestar. Um programa bacana. Ele é suportado com um fundo que eu criei no meu outro governo chamado Fundágua, que tira um pedacinho dos royalties do petróleo e coloca em um fundo para que a gente faça recuperação e preservação de nascentes e de cobertura florestal estratégica, mata ciliar, enfim, questões que são fundamentais para que se possa ter uma retenção de água maior.
Então, precisamos colocar água no subsolo. Pra água vir da chuva e ser estocada no subsolo precisa ter cobertura florestal. Senão, ela bate no solo, carrega os detritos e vai assoreando os cursos d’água, os rios, e se perde no mar. Para ela ir para o subsolo, precisa ter cobertura florestal.

SIM: E sobre as barragens, o que o governo está fazendo?
Montamos em plena crise que nós estamos vivendo um programa novo de governo, que é o programa de barragens. Assumimos aquela barragem lá em Pinheiros, que era uma obra federal e que estava parada, e agora está andando, que é uma obra monumental para o lugar, e agora ela vai entrar em funcionamento para a gente ter uma reserva de água no extremo-norte que é uma área com um grande déficit hídrico.
Também já licitamos e já iniciamos obras para um conjunto de barragens. Também em Lajinha, no município de Pancas, fui lá no início da obra da barragem, uma obra que a comunidade luta por ela há mais de 20 anos. Foi uma coisa muito bacana, a comunidade toda emocionada quando nós começamos a obra. Em Marilândia, o César Colnago, vice-governador, deu a ordem de serviço, onde tem um problema de água muito grande. Já me mandaram as fotos. Agora tem drone, as pessoas acompanham as obras com drones, filmam. Então, a obra está andando muito bem.
Agora que fui a Singapura e a Holanda, o César e o Otaciano, secretário de Agricultura liberaram obras de barragens em assentamentos, e é um conjunto de assentamentos que vai receber barragens. Enfim, são 30 barragens. E eu queria falar de uma delas, porque estamos reforçando o abastecimento da Grande Vitória, lembrando que na Grande Vitória mora a metade da população do Espírito Santo, praticamente. Então contratamos uma empresa de engenharia, já estamos fazendo o projeto, para que nós tenhamos um reservatório no Rio Jucu, exatamente ali na subida para o Vista Linda (Domingos Martins). Ali tem um grotão e o braço norte do Rio Jucu faz uma curva. Nós queremos reservar 20 bilhões de metros cúbicos de água e dar uma segurança de abastecimento maior para a Grande Vitória. Se Deus quiser, o início da obra será no ano que vem. Teremos que fazer desapropriações; é uma obra de aproximadamente 100 milhões de reais e eu já comecei a conversar com a Caixa e com o BNDES pra ver se a gente consegue financiamento. Também podemos ter um parceiro privado nesta obra, porque a ideia é múltiplo uso. Reservar água e gerar energia, e dará para gerar um pouquinho de energia naquela região.
Uma outra conquista importante que tivermos e eu quero reconhecer e aqui agradecer foi junto à empresa de energia EDP, que tem aqui em Santa Maria de Jetibá um grande reservatório que é Rio Bonito, se não me engano, com 21 bilhões de litros de água, e desde o primeiro momento da crise no ano passado, a EDP disponibilizou e faz o gerenciamento com a gente. Quando tem muita água eles produzem energia, quando não tem muita água eles param a produção de energia e deixam para que a gente gerencie para o consumo humano. É a água de lá que desce até a divisa do território da Serra com Cariacica, onde temos uma captação da Cesan que abastece o norte da Região Metropolitana.

SIM: E qual o papel da Cesan nesse momento tão delicado?
Antecipamos em cinco anos o plano de investimento da Cesan. Estava previsto no planejamento estratégico da Cesan fazer uma captação de água no Reis Magos daqui há 5 anos. Trouxemos esse investimento de aproximadamente 70 milhões de reais para agora e eu peguei um pedacinho da operação de crédito que nós temos com o BNDES e cobri. Desapropriamos uma área, estamos montando uma estação de tratamento lá, vamos captar no rio, tratar a água e de lá despachar primeiro para Serra Sede, onde construímos no meu mandato passado um grande reservatório de água. Nós vamos injetar com essa captação uma quantidade de água na Região Metropolitana que é a mesma que a região de Cachoeiro de Itapemirim consome.

SIM: E os produtores rurais que foram afetados diretamente pela seca?
Nós estamos plantando árvores para colher água nas nossas nascentes. Estamos buscando também reservar água no momento de chuva, guardar água para o momento de escassez. Nós estamos fazendo esse plano de barragem no estado inteiro.
Facilitamos aos produtores rurais para que eles pudessem licenciar a barragem e estamos fazendo uma coisa importante. Consegui no ano passado, e isso é inédito em relação aos Estados, eu contratei isso, uma operação nova com o Banco Mundial e estamos fazendo o Águas e Paisagens. O que é isso? Vamos lá no Mangaraí, um afluente do Rio Santa Maria, e vamos fazer a recuperação ambiental do Mangaraí, desassorear o rio, plantar árvores na parte de recarga, que a gente chama de cobertura florestal estratégica, cuidar das nascentes, e ao mesmo tempo a gente vai investir na captação e tratamento do esgoto, na captação e no tratamento da água. É um sistema integrado esse projeto com o Banco Mundial.
Então, o momento é de dificuldade e nós temos muitas ações e uma ação importante é junto à bancada federal que é a renegociação da dívida dos agricultores porque esse período de estiagem trouxe muito sofrimento para os agricultores capixabas. Essa medida é um passo, mas não é suficiente, e agora está brigando para ampliar essa medida no sentido de dar uma proteção aos nossos produtores rurais para que possam superar essa adversidade que estamos dentro dela.

SIM: Como fica a participação da população nesse momento de crise hídrica?
Uma outra ação que estamos fazendo é de conscientização. Eu queria complementar com isso. Porque o brasileiro foi mal acostumado com o seu relacionamento com a água e os recursos naturais. Agora a ficha está caindo. Não é infinito. É preciso cuidar da natureza e precisa usar com parcimônia esse recurso. Vai escovar um dente, vai tomar um banho, precisa ver a quantidade de água que vai gastar. Os povos mais desenvolvidos já têm um consumo de água mais reduzido em relação ao que nós, brasileiros consumimos. Então, tem uma parte de educação. Quando veio a crise no ano passado as pessoas se educaram e houve uma grande economia aqui na Grande Vitória e no interior também onde a gente pode medir. Depois, com o passar do tempo, veio a chuva, as pessoas foram relaxando. Nós não podemos fazer economia só na crise, temos que ter uma cultura de conviver, gastando menos água. Então tem aí uma questão cultural para a gente trabalhar junto às igrejas, as escolas, meios de comunicação. Água é vida e precisamos usar com economia. Isso é muito importante. Veja agora a reação. A gente falou em fazer um rodízio e as pessoas começaram a pensar como iriam comprar um tambor para colocar água dentro de casa. Mas o rodízio é justamente pra gente gastar menos.

SIM: Governador, aproveitando a entrevista, gostaríamos de pontuar alguns assuntos. Perspectivas de novos negócios no Espírito Santo?
O cenário é positivo mesmo diante de uma recessão econômica grave que ainda estamos dentro dela. Eu acho que alguns fatores têm nos ajudado no sentido de trazer o olhar dos investidores em direção às terras capixabas. A diferença que nós marcamos no Brasil em termos de organização, inclusive de organização fiscal, chamou e está chamando muito a atenção dos empresários. Enquanto vizinhos nossos não estão conseguindo pagar a folha de pessoal, os aposentados, o Estado aqui, com muita dificuldade, evidentemente, porque o quadro é muito difícil, está conseguindo manter seus compromissos em dia. Isso mostra pra quem quer investir no Brasil que um dos seus estados está andando no bom caminho. Eu tenho recebido aqui um conjunto de empresários. Eu fui mundo afora divulgando o nosso Estado. A gente está aí conseguindo atrair empresas e fazer com que empresas estudem o nosso estado como um espaço de ampliação e de desenvolvimento dos seus negócios. E nossa perspectiva é muito boa. Toda crise passa e é importante atravessar a crise de maneira organizada para que esteja bem posicionado no pós-crise. Talvez se torne o Estado mais bem posicionado para as oportunidades do pós-crise. Mas eu estou feliz porque, olha quanto investimento nós conseguimos trazer pra cá. No aeroporto, em plantas industriais novas, em atividades comerciais novas ou ampliadas, então tem um conjunto de atividades. Conseguimos mexer lá na poligonal do Porto de Barra do Riacho, no Portocel, e isso já permitiu a Imetame, do Etore Cavalieri começar a construir um terminal portuário privado. Temos um conjunto de atividades se conectando em plena crise, e muita coisa para o momento seguinte desta crise.

SIM: Educação?
Nesse governo demos um salto importante, mesmo em plena crise, trouxemos um outro modelo pedagógico para a nossa rede para o Ensino Médio e também para o segundo ciclo do Ensino Fundamental, que é o experiência da Escola Viva. É a escola de tempo integral; uma escola com protagonismo dos jovens, dos estudantes, uma escola diferenciada. Isso tudo vai nos ajudando numa direção que o Brasil precisa tomar. O Brasil precisa melhorar a educação básica, como instrumento de competitividade mesmo. Se a gente quiser aumentar a competitividade do Brasil frente aos outros países, a produtividade do trabalho dos brasileiros, frente aos trabalhadores dos outros países, tem que melhorar a educação e não é mais aquela educação do passado de decorar as coisas, é a educação do presente e do futuro, do aprender a aprender. Em todo momento estamos sendo desafiados a aprender coisas novas, todos nós, tenhamos a idade que for. Nossas escolas estão melhorando, nossos mestres estão se dedicando cada vez mais, os professores têm um papel importante nessa construção, é uma obra coletiva que eu acho que pode virar uma boa marca do Espírito Santo.

SIM: Projeto político de Paulo Hartung para o futuro.
Eu tenho um compromisso com os capixabas de liderar esse governo até 2018. E o que pretendo fazer em 2018? Me desincompatibilizar e me colocar à disposição para disputar alguma coisa que me coloque definitivamente no debate nacional. As oportunidades que temos no Espírito Santo é disputar uma vaga de deputado federal ou de senador. A princípio, é isso. Quando chegar em abril de 2018 passarei o governo para o nosso vice, César Colnago, que é um excelente vice. O César faz o final do governo, e eu vou disputar algum mandato e ver qual é o sentimento da população capixaba, o que acha que eu devo disputar, e acho que está na hora de eu me envolver de corpo inteiro no debate nacional. Vamos ter uma agenda pesada para que o país seja um país com uma produtividade compatível com esse mundo integrado que estamos vivendo, quer dizer, tem muita coisa pra fazer, para modernizar o país. Perdemos muito tempo, mas águas passadas não movem moinho. Temos que olhar pra frente, mas parando de empurrar problemas e desafios com a barriga. Precisamos enfrentar nossos problemas, porque estamos vivendo um mundo integrado que não para pra esperar ninguém, ele anda e anda velozmente. E esse mundo não vai parar para esperar o Brasil. E nesse mundo que anda velozmente por causa das novas tecnologias, um mundo que está literalmente na palma da mão, precisamos de um lugar ao sol. Só vamos ter um lugar ao sol se a nossa infraestrutura melhorar, se a educação básica do país melhorar, e quando falo de infraesturura, estou falando de rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, energia, transmissão de dados, se o país ficar com um ambiente de negócios melhor, com estabilidade jurídica, aí teremos chances de ter um lugar nesse mundo integrado e competitivo que estamos vivendo.

COMPARTILHAR