Cachaça: A bebida do Brasil completa 500 anos

A cachaça é uma bebida genuinamente brasileira e está completando 500 anos. A data motiva comemoração. A bebida mais popular do país sofreu discriminações e tem uma história de resistência. Assim como a tequila é a bebida nacional do México, o rum é a bebida dos cubanos e o whisky dos escoceses, a cachaça é a bebida “verde e amarela” e faz parte da construção da identidade brasileira.
A cachaça e o Brasil começaram juntos. Teria sido produzida inicialmente por colonos portugueses em um engenho na feitoria de Itamaracá, na Capitania de Pernambuco, a partir de 1516. A data é improvável. Há quem sustente que seria em um outro engenho, na Capitania de São Vicente (São Paulo). O certo é que a cachaça atravessou os séculos e tornou-se patrimônio histórico e cultural do povo brasileiro e tem status de símbolo da gastronomia nacional.

Primeiro gole
A cachaça é assunto que vem estimulando estudos e pesquisas científicas, por sua importância histórica e antropológica. Uma das teses aponta que foram escravos de engenho os primeiros a provar (e aprovar) o que viria a ser a nossa cachaça.
Dizem que ‘descobriram’ a bebida ao consumirem rejeitos do processo da produção do açúcar (da cana-de-açúcar). Uma espécie de espuma azeda (mosto fermentado) que se dava aos animais, chamada pelos escravos de ‘cagaça’. Ao beberem aquilo, ficavam mais animados e alegres. Enxergando aí uma oportunidade, os portugueses foram aperfeiçoando a bebida, passando a destilá-la em alambiques de barro, e também a consumir e comercializar.

Mais uma
Ao longo dos séculos, a cachaça passou a integrar-se à vida dos brasileiros. No âmbito cultural, é presença marcante no nosso folclore, em festividades tradicionais e em cultos religiosos de origem africana. É cantada na música e contada em verso e prosa na literatura. É também a bebida mais democrática do país por ser barata, e por se achar do botequim de qualquer esquina aos bares e restaurantes mais sofisticados.
Hoje, a cachaça é o terceiro destilado mais consumido do mundo. No exterior, a nossa cachaça é mais apreciada na forma do drink “caipirinha”, uma mistura de cachaça com suco de limão, açúcar e gelo.

No litro
Como produto econômico, a cachaça gera em torno de 600 mil empregos diretos e indiretos no país, além de renda em toda a sua cadeia produtiva. Além de suprir o mercado interno, da atual produção estimada em torno de 2 bilhões de litros por ano (incluindo fontes formais e informais), apenas 1% deste volume vão para o mercado externo, chegando a mais de 60 países.
O modesto volume de exportação pode ser creditado a alguns gargalos como: o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na casa dos 25%; falta de uma maior organização e articulação do setor de produção, falta de incentivos e de divulgação das marcas no exterior, e até falta de uma maior crença interna no potencial do produto.
A folclórica cachaça, que veio do meio popular, sofreu ao longo de sua história uma overdose de discriminação. Até hoje, por sua reputação, quando o assunto é cachaça, muita gente ainda torce o nariz. A bebida chegou inclusive a ser proibida no país no século XVII, pois competia com o vinho português, e até bem pouco tempo, era bebida desclassificada. A cultura hegemônica impunha que chiques eram as bebidas importadas.
Mas isso está mudando. Em 2005, o governo brasileiro baixou uma Instrução Normativa regulamentando o produto e estabelecendo oficialmente o nome “cachaça” para a aguardente de cana-de-açúcar produzida no Brasil. É que aguardente também designa bebidas com outras matérias primas.
O país também tem buscado o reconhecimento da cachaça junto a organismos internacionais, como a Organização Mundial de Aduanas (OMA) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) como destilado exclusivo do Brasil.

Alguns números da cachaça

• 40.000 produtores no Brasil
• 98% de pequenos e micro-empresários
• 600 mil empregos diretos e indiretos
• 11,5 litros de consumo de cachaça por ano por habitante
• 7 bilhões de reais de movimento anual em sua produção
• 4.000 marcas de cachaça disputam mercado no Brasil
• Exporta cerca de 1% de sua produção anual
• 50% das Exportações é de cachaça a granel
• 70% da produção brasileira é de cachaça de coluna ou industrial e 30% de cachaça de alambique
• Mercado informal: ainda elevado em algumas regiões o que elevaria a nossa produção para algo em torno de 2 bilhões de litros/ano
• 3º Destilado mais consumido no mundo
• 87% do market share dos mercado de destilados no Brasil
• 70% dos consumos de cachaça são realizados em bares e restaurantes e 30% nos demais pontos de vendas

O lado sombrio
É verdade aquela velha afirmação: “cachaça mata”. Assim como as demais bebidas alcoólicas, é um produto ambíguo, bom e ruim, “que dá pra rir e pra chorar”. A mesma cachaça que dá prazer gustativo, relaxa tensões, alegra e é fator socializante, pode também acarretar consequências trágicas para quem “não sabe beber”, que passa da conta e dela abusa.
A alteração de sentido e comportamentos pode levar a desastres no trabalho ou no trânsito, desentendimentos e brigas; ações violentas ou criminosas que fazem aumentar as populações carcerárias.
Como se não bastasse, autoridades da saúde pública alertam que bebidas alcoólicas são portas abertas para dependências químicas, e em excesso provoca graves males à saúde. O alcoolismo é responsável por óbitos, incapacitações para o trabalho, desintegração de famílias, etcétera.

Só para adultos
É prudente também lembrar que menores de 18 anos são proibidos de beber e até de comprar bebida alcoólica. Em março de 2015 foi sancionada a Lei 13.106/15 que criminaliza a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos. A lei estabelece pena de detenção de dois a quatro anos para quem descumprir a proibição, além de outras sanções. O estabelecimento pode ser multado em até 10 mil reais e ainda sofrer interdição.

A cachaça do ES
O Espírito Santo é um produtor ativo de cachaça. Há alambiques artesanais e indústrias espalhadas por todo o estado. Dados de 2009 registrados no livro “Sabores do Espírito Santo: Cachaças Capixabas”, da historiadora Patrícia Merlo, revelam que a produção de cachaça no Espírito Santo mantinha na época 5 mil empregos diretos. Envolvia cerca de 350 alambiques e dos quais somente 120 eram empresas formais.

Ranking das melhores cachaças brasileiras

cachaca-capixabaPara reconhecer e qualificar as cachaças brasileiras, há um ranking de respeito, editado pela organização Cúpula da Cachaça e estabelecido por um grupo de ‘cachacistas’ renomados. Neste ranking de 2016, a cachaça capixaba “Reserva do Gerente – Carvalho”, produzida no município de Guarapari, ocupa o honroso 2º lugar entre as 50 melhores marcas do Brasil.  O ranking é composto por um conjunto de atribuições que conferem qualidade à bebida, como coloração, aroma, paladar, oleosidade, entre outras virtudes

• 1. Porto Morretes Premium – Morretes (PR)
• 2. Reserva do Gerente Carvalho – Vila Velha (ES)
• 3. Companheira Extra Premium – Jandaia do Sul (PR)
• 4. Sanhaçu Umburana – Chã Grande (PE)
• 5. Reserva 51 – Pirassununga (SP)
• 6. Leblon Signature Merlet – Patos (MG)
• 7. Porto Morretes Tradição – Morretes (PR)
• 8. Weber Haus Extra Premium Lote 48 – Ivoti (RS)
• 9. Da Tulha Carvalho – Mococa (SP)
• 10. Anísio Santiago / Havana – Salinas (MG)

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