Alfonso Silva: “Espírito Santo tem potencial, mas falta infraestrutura”

O turismo de negócios e eventos é uma das atividades que mais crescem no Espírito Santo e está entre as que mais geram renda e emprego porque mobiliza uma cadeia produtiva com mais de 50 segmentos. O volume de eventos agendados para 2016 é animador: um calendário prévio do Espírito Santo Convention & Visitors Bureau (ESC&VB0) já lista 23 eventos técnicos, científicos, culturais, expositivos e gastronômicos que devem atrair 60 mil turistas e movimentar mais de R$120 milhões. Contudo, para o presidente Executivo do ESC&VB, Alfonso Silva, esse número poderia ser bem mais expressivo. É que, na sua visão, “o Espírito Santo tem um potencial extremamente diferenciado, mas falta infraestrutura”, citando, por exemplo, a ausência de um Centro de Convenções com capacidade para sediar grandes eventos, ou de um resort.
Alfonso Silva é administrador de empresas e empresário da área de infraestrutura para eventos empresariais. Sulmatogrossense de Corumbá, forte sotaque alagoano e “capixaba de coração”, há três anos preside o ESC&VB, fundação que reúne mais de 100 empresários do segmento de eventos. Em entrevista à Revista SIM Alfonso traça um panorama do turismo de negócios e eventos no Estado.

Revista SIM: A Fundação Espírito Santo Turismo & Eventos, nome oficial do Espírito Santo Convention & Visitors Bureau, foi criada em maio de 1998. Que avaliação o senhor faz desses 18 anos da entidade?
Alfonso Silva – O Convention Bureau transformou o turismo de negócios e eventos no Espírito Santo como transformou no mundo inteiro. É um foco de empresários que se reúnem para difundir e captar eventos, apesar das dificuldades que nós temos hoje no Espírito Santo. Nesses últimos 18 anos temos números que são extremamente positivos.
SIM: Por que 2016 traz boas perspectivas para o segmento de eventos no Espírito Santo?
Nós temos um calendário de eventos permanente no Estado que já movimenta a economia como um todo, e temos o calendário de eventos itinerantes, que têm uma característica diferente e que vai dar um resultado após dois ou três anos. Então, o resultado de 2016 é um trabalho feito de 2014 pra cá, quando assumimos o Convention, e que começa a dar fruto agora, trazendo eventos nacionais, porque eles são captados com antecedência, com dois, três, e com até 10 anos de antecedência. Nós já temos eventos agendados para 2019 que foram captados no ano passado, com quatro anos de antecedência.

SIM: Este ano estamos bem, ou pelo potencial do Estado poderíamos estar melhor?
Estamos muito abaixo do que nós deveríamos estar, porque, na realidade, o nosso estado tem um potencial extremamente diferenciado de todos os outros estados, porque estamos no centro do Brasil, estamos na ponta, e daqui se pode ir para o nordeste, para o sul, para todas as regiões. Nossa localização é estratégica. Outra vantagem está no deslocamento interno. Hoje, circular pela Grande Vitória, nos cinco municípios, gasta-se de 30 a 50 minutos. Isso é mobilidade, facilita. Além disso, nós temos uma rede hoteleira muito capacitada, com um volume muito grande de oferta e com preço competitivo. Sem falar que estamos na Região Sudeste, dentro dos grandes centros, e temos um preço final pra realização de evento infinitamente menor do que no Rio, São Paulo ou em Minas Gerais. O custo final do evento no ES é menor.

SIM: Temos também nossos atrativos naturais…
Na realidade, o turismo de negócios e eventos é o alavancador do turismo de lazer. Hoje, o turismo de lazer nosso está pouco trabalhado, é um turismo que ainda compete com grandes centros, porque, como sempre cito, temos 5.500 quilômetros de praias no Brasil, então, beleza natural tem em qualquer recanto deste país. Agora, trabalhar o turismo com inteligência são poucos os que conseguem fazer. Como falar de turismo de lazer se não temos um grande resort? Temos hoje algumas iniciativas pioneiras, como o caso nas montanhas, com o Parque do China e em Guarapari, com o Aquamania, mas são poucos ainda para uma demanda muito grande. O que o turista de lazer quer é comodidade. Comer, beber e se divertir tudo no mesmo local, e isso só se consegue com um grande resort, um grande empreendimento e que, talvez, o Espírito Santo possa entrar nessa rota em breve.

SIM: Como assim?
Temos aí dois projetos que estão se arrastando há muito tempo, sendo um nas Três Praias, e parece que agora tem um outro para a região de montanha, que deve estar saindo acelerado. Mas qualquer projeto desses é para 8 a 10 anos de construção.

SIM: Na sua visão, como recebemos o turista?
Você só pode fazer turismo onde você é feliz. Não se consegue fazer turismo numa cidade onde as pessoas não são felizes. Todos querem ir para lugares onde as pessoas recebem bem, são alegres, dizem bom dia, boa tarde, boa noite. Eu trabalho em Minas também. E estava caminhando lá em um calçadão e todo mundo que passava por mim dava bom dia. Aí eu disse para meu amigo: no Espírito Santo a gente tromba com as pessoas no calçadão e ninguém dá bom dia! Então, ainda precisamos aprender a receber bem o turista. Em alguns locais acham até que turista é um incômodo. Turista não é um incômodo, ele gera emprego e renda, gera recursos para a cidade.

SIM: O que falta no Espírito Santo para receber eventos nacionais e internacionais de maior porte?
Não temos ainda uma infraestrutura adequada. Ainda temos alguns locais em que precisamos improvisar para fazer grandes eventos. Não temos um aeroporto condizente com a nossa realidade e já poderíamos ter. Ainda não temos um transporte de massa adequado à mobilidade urbana. A nossa segurança já melhorou muito, mas ainda falta melhorar mais. Os nossos taxis precisam ser mais qualificados. Precisamos ter locais adequados para a realização de congressos técnico-científicos. Hoje atendemos eventos para até 2.500 pessoas perfeitamente, mas acima disso não conseguimos captar. Os congressos nacionais hoje menores, por categoria, são de 4 a 5 mil pessoas. Enquanto em Fortaleza o novo centro de convenções consegue atender 22 mil pessoas. Precisamos colocar isso em pauta. É uma pauta urgente, é do século passado, tem que ser resgatada. O centro de convenções é fundamental para a inserção do Espírito Santo no roteiro dos grandes eventos itinerantes do Brasil. Sem o centro de convenções não vamos a lugar nenhum. Vamos sempre ficar com os pequenos eventos; aquilo que o Brasil não quer é que virá para o Espírito Santo.

SIM: Que projeto e esse?
O centro de convenções é um projeto que está tramitando há 12 anos. Ele tem a mesma história do nosso aeroporto. O Espírito Santo tem algumas coisas que não andam. O Governo do Estado tem uma área maravilhosa, que é o Pavilhão de Carapina, que é uma concessão do governo para um grupo de empresários. Está acabando a concessão e com uma adequação pequena ele consegue atender a demanda. Então, acho que com a vontade do governo, isso deve ser resolvido brevemente.

SIM: Em recente levantamento, o Espírito Santo Convention Bureau divulgou que ao longo dos últimos dez anos foram realizados 944 eventos, com a participação de 466 mil turistas, que injetaram na economia capixaba R$ 574 milhões. O que mostram esses números?
Esses números, apesar de serem grandes, ainda são muito pequenos pelo nosso potencial. Mostram que precisamos crescer, precisamos evoluir. Teríamos condições, nos últimos 10 anos, de ter no mínimo quatro vezes esses números se nós tivéssemos realmente uma infraestrutura, uma vontade política de realização de grandes eventos. É importante entender que se faz um evento, movimentam-se 52 cadeias produtivas, não só uma. Por exemplo, em determinada atividade como mineração, você movimenta 15 ou 16 cadeias; em eventos, são 52 cadeias produtivas acessórias: segurança, taxi, hotel, alimentação, montagem de stands, centro de convenções, entretenimento, lazer, transporte aéreo, limpeza, brigadista, ambulância, helicóptero, noite, … e aí, se diz que o governo precisa dar 200 mil reais para determinado evento, não. A arrecadação que ele vai ter ela virá numa cadeia produtiva infinitamente difícil de calcular, porque será muita geração de emprego e renda, além de gerar na comunidade o senso da felicidade, do entrosamento, a troca de cultura entre os povos, que é muito importante.
Vitória é linda, o Espírito Santo é lindo. Temos uma região de montanha maravilhosa e a menos de 50 quilômetros temos a praia. A região de Santa Teresa é um marco da colonização italiana. Temos um santo e ninguém ainda percebeu que Anchieta é um santo, que é daqui do Espírito Santo e que ainda não estamos fazendo nada pelo turismo religioso, o que é um pecado. As pessoas rodam o mundo também nesse turismo. Fui fazer a caminhada da Romaria dos Homens, mas achei que poderia ser mais organizada.

SIM: Quem ganha com o turismo de negócios e eventos?
Primeiro é a população. O turismo de negócios e eventos tem uma característica muito diferente. Enquanto um turista normal gasta em média 18 a 20 dólares, no turismo negócios o turista deixa na cidade entre 80 e 100 dólares. Segundo, é a comunidade que está realizando o evento, porque quando é um evento médico, a disseminação desse segmento é muito grande, a qualidade desses profissionais que se qualificam no evento é muito melhor, a projeção do estado ganha, ganham os empresários do setor, ganha o governo e ganha todo mundo. Tem ainda um detalhe importante. O turismo de negócios e eventos não sonega. Porque normalmente as pessoas que vêm participar elas vêm através de uma empresa, eles emitem nota, querem comprovação de despesa. É diferente um pouco do turismo de lazer, em que as pessoas não se preocupam muito com emissão de notas. O turismo de negócios e eventos é fundamental para o desenvolvimento de toda a comunidade. O mundo inteiro mostra isso.

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