Alexandre Inagaki: “O futuro, na real, já está presente, cada vez mais”

A internet revolucionou o mundo moderno e está cada vez mais presente na vida das pessoas. Suas possibilidades são infinitas e nesse universo, as redes sociais se destacam, democratizando o próprio uso do computador, conectando pessoas e se tornando um espaço de comunicação, de relacionamentos e de interações jamais imaginável para quem chegou antes da internet. O jornalista Alexandre Inagaki, 42 anos, faz parte dessa última geração que conheceu o mundo sem internet e que se encantou com ela, tornando-se um expert no assunto.
Nesta entrevista exclusiva Inagaki responde a diversas perguntas sobre internet e redes sociais; fala de comportamentos, de novos formatos de comunicação e interfaces; do dinâmico e do efêmero, do bem e do mal no universo online. Dono do blog “Pensar Enlouquece, Pense Nisso” (http://www.pensarenlouquece.com), Inagaki, um ‘japaraguaio’ que mora em São Paulo, trabalha desde 2006 com publicidade. É consultor de comunicação em mídias digitais, tendo entre seus clientes agências como Coca-Cola, Bradesco, Sony Pictures Brasil, W/McCann, DPZ e Wunderman. Colabora em sites como ESPN Brasil e Brasil Post. Nas horas vagas, é palestrante e curador de eventos de cultura digital.

Revista SIM: Pensar enlouquece mesmo? Você tem pensado nisso?
Alexandre Inagaki – Akira Kurosawa dizia: “Neste mundo louco, loucos são os sãos”. Penso nisso constantemente, e trabalhar com internet, uma área que funciona 24 horas por dia inclusive domingos e feriados, colabora ainda mais para que meus níveis de sanidade, creio eu, estejam consideravelmente abaixo da média geral.
SIM: Como você vê o fenômeno internet?
Como algo que revolucionou em definitivo o mundo e nossas vidas. Eu, que faço parte da última geração que conheceu o mundo sem internet, me considero privilegiado por viver nesta época incrível, testemunhando todas as modificações cada vez mais ágeis e intensas em todas as esferas do nosso dia a dia, e buscando ser parte ativa de todas essas revoluções.

SIM: Recentemente você participou de um programa de TV que discutia novos formatos de comunicação na internet (como memes, gifs animados, emojis e tweets) e de como novas interfaces como Snapchat, Vine e Periscope estão transformando a forma como nos relacionamos e nos comunicamos uns com os outros. Que transformação é esta? É positiva ou não?
Nestes tempos em que a internet nos acompanha por onde quer que vamos (ao menos enquanto pega o sinal de 3G ou 4G e a banda larga ainda é ilimitada), é mais do que natural que o modo como nos comunicamos acabe sendo influenciado pelas redes sociais, aplicativos de celular, memes e outras formas e formatos online. Essa transformação é bastante positiva no sentido em que fronteiras se dissipam: pessoas que usam Skype para conversarem com amigos e parentes que estão em cidades, estados, países distantes, amizades que surgem através de afinidades descobertas através de sites de relacionamento, mídias sociais ou grupos de Facebook. Além disso, a comunicação torna-se muito mais acessível: você não precisa mais pagar DDD ou DDI por uma ligação telefônica, consegue trocar mensagens, fotos e vídeos de forma muito mais simples por meio de um WhatsApp ou Telegram da vida, informa-se em tempo real de modo bem mais ágil acompanhando tweets ou transmissões em vídeo feitas através do Periscope ou Facebook Mentions.
Há quem diga que a internet tem tornado as comunicações mais superficiais, mas eu discordo disso. Afinal, a internet nada mais é do que uma ferramenta: é como uma faca, que pode ser usada para gravar uma mensagem em madeira ou ferir uma pessoa. Você pode passar o dia inteiro usando seu tempo online para ver piadas ou repassar boatos infundados sobre a Dilma ou o Temer, do mesmo modo que poderia estar assistindo a palestras do TEDx e estudar física quântica, literatura francesa ou design thinking. Internet é muito, muito mais solução do que problema.

SIM: Você diz que um ano do homem corresponde a sete anos do cachorro e fazendo uma comparação, um ano da internet corresponde a sete anos do homem. Como assim?
Alguns veterinários costumam dizer que um ano de vida de um cachorro equivale a sete de um ser humano. O modo como o tempo passa na internet é mais ou menos assim: tudo acontece de maneira muito mais rápida, dinâmica e efêmera no universo online. Um meme que bombou nas redes sociais já soa velho e ultrapassado passada uma semana, que é mais ou menos o tempo que leva para repercutir no Fantástico. O Orkut saiu do ar no final de 2014, mas para quem trabalha na área soa a algo que ocorreu no século passado. E por aí vai.

SIM: Os longos tempos de conversa nas redes podem atrapalhar os diálogos falados? Há quem conversa com os outros no WhatsApp sentados juntos em uma mesa de bar. Afinal, redes sociais nos aproximam ou nos distanciam?
Convenhamos: se você está numa mesa de bar ou de restaurante com uma pessoa, mas prefere ficar vendo redes sociais no celular, isso é basicamente falta de noção e de educação. E aí o problema está muito mais na pessoa em si do que nas redes sociais.
Conheci a maior parte dos meus amigos graças à internet: através de comunidades de Orkut, comentários de blog que escrevi ou recebi, eventos de cultura digital aos quais estive presente por causa das minhas atividades online, mensagens no Twitter, etc, etc. No final das contas, creio que a internet é como uma imensa mesa de bar na qual você pode, a qualquer momento, puxar uma cadeira e participar das conversações sobre todos os assuntos possíveis que acontecem o tempo todo. A partir daí, fica ao critério de cada um aproveitar o que há de bom e de ruim nessa dinâmica: você pode agir como um daqueles bêbados inconvenientes que arranjam brigas, ou fazer novas amizades que poderão transcender a vida online e acompanharem você na vida para muito além dos smartphones e computadores.

SIM: Qual a importância das redes sociais e qual deve ser o futuro delas?
Redes sociais agilizam as comunicações e nos trazem informação e entretenimento em tempo real. Não é possível mais conceber o mundo em que vivemos sem elas. E, graças à popularização cada vez maior dos celulares e da banda larga, já causam impacto em todas as faixas etárias e classes sociais, vide a comoção que ocorreu no Brasil quando a Justiça recentemente bloqueou o uso do WhatsApp em todo o território nacional. Afinal, redes sociais não são mais privilégio de uma elite: estudantes, aposentados, porteiros, diaristas, faxineiros, músicos, operários usam apps para ler notícias, trocar ideias, pesquisar preços, fechar negócios, paquerar, conversar com familiares. O futuro, na real, já está presente, cada vez mais.

SIM: Por que as pessoas gostam de se relacionar através das redes?
Porque somos seres sociais. Desde crianças nos relacionamos com outras pessoas no ambiente familiar, na escola, no trabalho, etc, e as redes sociais nada mais são do que facilitadores de todas essas interações.
SIM: Humor, sabor e amor são temas recorrentes nas postagens. O que isso diz pra você?
Nada mais natural, afinal de contas o ser humano é movido a amor (seja ele mais espiritual ou carnal), humor e sabor.

SIM: Mas as redes também têm sido ambientes férteis para manifestação de intolerância, ódio e provocações. Você vislumbra aonde isso vai dar?
A internet, essencialmente, é uma lente de aumento da nossa sociedade: todos os seus aspectos positivos e negativos aparecem de forma muito mais clara através do ambiente online. E, se uma sociedade vive tempos conturbados, como é o caso do atual momento político e econômico brasileiro, as discussões na internet vão acabar refletindo toda essa tensão que vivemos. Não é de se surpreender, pois, que discutir assuntos como impeachment e escândalos de corrupção acabem descambando em bate-bocas exasperados na web. E se políticos e celebridades, na vida offline, não conseguem manter a compostura e se agridem desferindo cusparadas e xingamentos, é claro que esse ambiente bélico também se reflete nos comentários que são postados em blogs, notícias de portais e redes sociais.
É até natural que esses aspectos negativos chamem mais a atenção, mas acho sempre importante ressaltar que, por meio das redes, ficamos sabendo de atos de solidariedade, divulgamos campanhas de apoio a causas como as vítimas do crime ambiental da Samarco e denúncias de violência contra a mulher, e minorias ganham voz e espaço para se expressarem. Se as pessoas realmente estiverem dispostas a discutir com civilidade e argumentos mais racionais, aprofundando-se sobre os assuntos antes de se meterem a opinar sem fundamentos, há inúmeros blogs, podcasts, e-books e materiais online à disposição de quem não pretende perder tempos com briguinhas pueris. Afinal, brigar na internet é como pedalar numa bicicleta ergométrica, são duas atividades que te levam de lugar algum para lugar nenhum.

SIM: E quem não gosta de estar nas redes sociais, o que está perdendo?
Estar nas redes sociais é importante para quem deseja compreender o modo como as pessoas estão trocando ideias, buscando informações e entretenimentos nos tempos atuais. Para quem trabalha em áreas como comunicação, é essencial participar dessas conversações, compreender melhor suas dinâmicas e como elas impactam diversas esferas da sociedade contemporânea. Redes sociais aumentam o seu networking, trazem novas ideias e inspirações e estimulam a criatividade.

SIM: Depois que o Orkut acabou, o Facebook entrou com força e permanece em alta. Qual é a expectativa de vida do Facebook? Por que?
Posso dizer que certamente o Facebook terá muito mais tempo de vida útil do que o Orkut, principalmente pelo fato de que Zuckerberg e sua equipe de trabalho sabem da importância de renovarem o seu produto trazendo novos produtos sempre. Enquanto o Orkut ficou estagnado no tempo, sem desenvolver novas features para seus usuários, o Facebook a toda hora implementa novidades em seus apps para celulares, ferramentas como o Facebook Mentions e os reactions que trouxeram mais opções além do “like” nas interações, vídeos em 360° e os Instant Articles. Além disso, o Facebook adquiriu dois dos aplicativos mais usados atualmente, o Instagram e o WhatsApp. Mantendo esse espírito constante de renovação, acho improvável que o Facebook suma do mapa do mesmo modo que aconteceu com o Orkut.

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